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A casa é um caldeirão

Morei numa espelunca.

16 de maio de 2026

*Texto de Andiana Freitas

Morei numa espelunca. A mais terna, adorável, festiva e parturiente espelunca. Renasci pela quarta vez nela, na casa 88. Era tão acolhedora que fez despertar no rio Paraíba do Sul o desejo incontido de ir até lá, invadir todos os cômodos. Que danado!

Tudo na casa 88 implorava trato, menos a alma dela; grandiosa, acolhedora, recebia, sorrindo, todos os jovens que, ali, buscavam sossego ou a desaceleração das inquietações que transbordavam.

A casa 88, a época da casa 88, a espelunca casa 88 era abrigo de pássaros, de sapinhos e de todos os nossos sonhos.

Não era minha, tive que aprender a dizer adeus.

Na memória afetiva foi a mansão sem paredes que a vida trouxe, pra que eu me expandisse um cadinho mais.

Mas a casa, o território, a imensidão escancarada nos poucos vídeos que visitei pelas portas do Fórum Artes da Casa, tudo o que ouvi – mais que vi – puxou a fieira do tempo e, nos rastejar dos fios, no chão, vieram as sensações, emoções que ainda não haviam sido avistadas pelo “dar-se conta…” Daí, o que mais passei a ouvir de mim mesma era uma ladainha em repetição: céus! Céus! Céus! O coração, de tão apertado, quase fechou sua porta.

Quantas casas, tantas, e cada uma delas pelas quais passei, tão exigentes e castradoras, sem dúvida mereceriam a frase dita “A casa é um caldeirão”. A história registra que os alquimistas precisavam manter o fogo do caldeirão aceso, permanentemente. Ou assim, ou não se processava a transmutação do chumbo em ouro.

Estou com a alma revirada, como casas em dias de faxina. Não imaginava encontrar tanta poeira e brinquedos em tantos cantos perdidos; tantos sinais que podem bem me dar conta de mim mesma.

Desde o berço de madeira numa casa cheia de gente, até aqui, no quarto onde habito e não sei se moro, pressinto, aos 65 anos, um mundo a ser descortinado.

Que não, nunca (!), me falte a curiosidade e a vivacidade da espelunca dos meus melhores dias na casa 88.

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*Andiana Freitas é musicista, estudante, artesã, vovó Didi, ciclista urbana e ativista delicada.

Conheça: https://www.instagram.com/andianafreitas/