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A juventude é a travessia estelar através da infinitude do universo

em busca do apogeu de seu brilho próprio

5 de setembro de 2026

**Texto de Manuela Silveira de Carvalho

“S’ Rioghal Mo Dhream
Minha linhagem é real”.
(Lema do clã MacGregor)

“Quando a noite cair, fica à janela,
E contempla o infinito firmamento!
Vê que planície fulgurante e bela!
Vê que deslumbramento!
Olha a primeira estrela que aparece
Além, naquele ponto do horizonte...
Brilha, trêmula e vívida... Parece
Um farol sobre o píncaro do monte.
Com o crescer da treva,
Quantas estrelas vão aparecendo!
De momento em momento, uma se eleva,
E outras em torno dela vão nascendo.
Quantas agora! Vê! Noite fechada...
Quem poderá contar tantas estrelas?
Toda a abóbada está iluminada:
E o olhar se perde, e cansa-se de vê-las.
Surgem novas estrelas imprevistas
Inda outras mais despontam...
Mas, acima das últimas avistas,
Há milhões e milhões que não se contam...
Baixa a fronte e medita:
O homem, sendo tão grande na vaidade,
Diante desta abóbada infinita
É pequenina e fraca a humanidade!”
(As Estrelas, Olavo Bilac)

A juventude é a travessia estelar através da infinitude do universo em busca do apogeu de seu brilho próprio

6° ano na sala de aula dos Trabalhos Manuais da Escola Waldorf

Ao redor dos doze anos, um novo limiar se anuncia na vida da criança. A infância começa, pouco a pouco, a recolher-se, enquanto a adolescência desponta como um horizonte ainda desconhecido. É um tempo de profundas transformações, no qual corpo, alma e pensamento procuram um novo equilíbrio. A puberdade desperta forças intensas, e aquilo que antes era vivido com relativa espontaneidade passa a ser experimentado com maior consciência e profundidade.

O jovem volta seu olhar para si mesmo e passa a perceber-se de maneira mais nítida diante do mundo. Com isso, nasce também uma crescente capacidade crítica: questiona a si próprio, os colegas, os adultos e até mesmo as verdades que antes aceitava naturalmente. Seu mundo interior torna-se mais rico, mas também mais inquieto. Os sentimentos intensificam-se; as alegrias parecem maiores, as frustrações mais profundas e as experiências são vividas com uma intensidade que, muitas vezes, transborda em palavras, gestos e atitudes.

Os amigos passam a ocupar um lugar especial em sua vida. A simpatia espontânea pelo professor já não basta para despertar seu interesse; ele busca relações mais autênticas e deseja encontrar sentido naquilo que aprende. Surge um forte impulso para experimentar o mundo por si mesmo. O jovem quer sentir, testar, descobrir e verificar a realidade por meio de suas próprias vivências.

Também os sentidos atravessam um período de amadurecimento. Toda experiência toca profundamente sua vida sensorial, e é por meio dela que o mundo lhe fala. Antes de julgar algo como verdadeiro ou falso, o jovem frequentemente o experimenta como agradável ou desagradável, próximo ou distante, despertando simpatia ou antipatia. Por isso, necessita de experiências ricas e significativas que orientem essa intensa abertura ao mundo. Quando essas forças não encontram caminhos saudáveis, podem manifestar-se na impulsividade, na oposição às regras ou em comportamentos desafiadores, pois as emoções ainda buscam uma forma equilibrada de expressão.

Ao mesmo tempo, desperta uma nova qualidade do pensar. A criança inicia a conquista do julgamento próprio. Já não lhe basta aceitar afirmações apenas porque foram ditas por um adulto; deseja compreender as razões, estabelecer relações de causa e consequência e fundamentar suas conclusões. Aprende, gradativamente, a distinguir o ato da pessoa, desenvolvendo um senso de justiça mais consciente. Os acordos precisam valer para todos, e os argumentos passam a exigir coerência e verdade.

Essa transformação pede também uma nova postura do educador. Além de transmitir conhecimentos, o professor é chamado a despertar o espanto, a curiosidade e a admiração diante do mundo. As imagens vivas, as experiências concretas, o humor e as perguntas que ampliam a percepção tornam-se caminhos mais fecundos do que longas explicações abstratas. O jovem deseja compreender, mas deseja, antes de tudo, encontrar sentido naquilo que aprende. A autoridade do professor nasce menos da imposição e mais da coerência entre suas palavras e suas ações, da justiça com que conduz a vida da classe e da confiança que pode inspirar.

Observam-se ainda diferentes movimentos entre meninas e meninos, embora cada jovem viva esse processo de maneira singular. De modo geral, as meninas tendem a voltar-se mais para o mundo interior, acompanhando intensamente as transformações do próprio corpo e vivendo com delicadeza e profundidade suas experiências emocionais. Os meninos, por sua vez, costumam direcionar suas forças para o exterior, expressando-as por meio do movimento, da ação e da necessidade de experimentação. Ambos, entretanto, percorrem o mesmo caminho essencial: o nascimento gradual de uma individualidade que busca encontrar sua própria voz e seu próprio lugar no mundo.

Aos doze anos, o educador torna-se um verdadeiro acompanhante dessa travessia. Sua tarefa é oferecer firmeza sem rigidez, liberdade sem abandono e desafios que despertem o pensar sem apagar o entusiasmo. É uma idade em que o jovem começa a caminhar com os próprios pés em direção à autonomia. Cabe ao adulto permanecer como uma presença segura, cuja autoridade pode brotar da sabedoria, da humanidade e do amor pelo desenvolvimento daquele ser que, lentamente, deixa a infância para iniciar a grande jornada de tornar-se quem é.

Pesquisa resumida sobre os Puffins da Escócia

Os puffins, conhecidos em português como papagaios-do-mar, são aves extraordinárias que habitam o Oceano Atlântico Norte, especialmente as Ilhas Faroe, a Islândia, a Irlanda e as Highlands da Escócia. Sua plumagem é predominantemente preta e branca, enquanto o bico adquire vivas tonalidades de laranja e amarelo durante a primavera, época em que retornam às falésias para o período reprodutivo. No outono e no inverno, porém, tanto o bico quanto a plumagem tornam-se mais discretos, assumindo uma coloração acinzentada que parece refletir o recolhimento característico dessa estação. Nessa época, permanecem em alto-mar e raramente são avistados próximos à costa.

Recentemente, descobriu-se que o bico dos puffins brilha sob luz ultravioleta. Embora essa característica desperte grande interesse entre os pesquisadores, sua função ainda permanece desconhecida. São aves pequenas, medindo cerca de 30 cm de altura.

Os puffins são monogâmicos e, ao encontrarem um parceiro, costumam permanecer juntos por toda a vida, que pode chegar a aproximadamente vinte anos. Demonstram afeto tocando delicadamente os bicos, em um gesto semelhante a um beijo. O casal põe apenas um ovo por temporada, depositado em uma toca escavada na terra ou entre as rochas das encostas. Ano após ano, retornam ao mesmo ninho e compartilham igualmente os cuidados com o ovo e com o filhote, que somente alcançará a maturidade reprodutiva por volta dos cinco anos de idade.

Suas asas revelam uma extraordinária capacidade de adaptação: servem tanto para o voo quanto para o mergulho. No ar, podem batê-las cerca de quatrocentas vezes por minuto; na água, alcançam profundidades de até sessenta metros, permanecendo submersos por aproximadamente um minuto enquanto pescam. São aves que transitam continuamente entre céu, terra e mar, atravessando com naturalidade diferentes limiares da natureza.

Possuem comportamento pacífico. Quando atravessam o território de outro grupo, mantêm a cabeça baixa como um sinal de que não desejam conflito. Entretanto, sua baixa taxa reprodutiva torna suas populações particularmente vulneráveis. Tempestades severas, derramamentos de óleo e a introdução de predadores em suas colônias podem causar perdas devastadoras.

A feitura do animal-da-alma*

Para este módulo, senti que precisava me entregar à escolha de um animal que dialogasse profundamente com minha alma. Decidi confeccionar, em feltro, um puffin escocês. A escolha desse material surgiu principalmente por sua disponibilidade e por permitir concretizar a paleta de cores que eu imaginava. Reconheço que o feltro talvez não seja o material mais durável, mas foi a alternativa mais acessível diante dos custos envolvidos na confecção do boneco.

Durante muito tempo considerei seguir a sugestão apresentada nas aulas e criar um animal de quatro patas. No entanto, o puffin sempre foi, para mim, o verdadeiro animal-da-alma, e eu não conseguia estabelecer a mesma ligação afetiva com outra opção. Ao recordar que a professora Mônica havia confeccionado um pinguim em sua época de escola, me confortei que talvez também pudesse criar uma ave e encontrei a coragem necessária para seguir esse caminho de experimentação apesar de compreender as relações entre os quadrúpedes e o jovem que atravessa o décimo segundo ano de vida.

O processo foi longo e cuidadosamente construído. Envolveu pesquisa, aquarela, desenho, elaboração dos moldes, recorte das peças e, por fim, a costura. Durante esse percurso, desenvolvi uma relação ainda mais íntima com esse animal, cuja forma de viver sempre me inspira. Sua capacidade de adaptação, a serenidade com que enfrenta mares e ventos, a fidelidade ao companheiro ao longo da vida e a habilidade de transitar entre diferentes elementos da natureza despertam em mim profunda admiração. Essas qualidades passaram a ressoar ainda mais intensamente à medida que o trabalho avançava.

Também planejei modelar um puffin em argila para compreender melhor sua volumetria. Entretanto, não consegui adquirir o material a tempo. Esse imprevisto levou-me a buscar outros caminhos: pesquisei modelos em crochê, construí protótipos em papelão e, por meio de inúmeras tentativas, erros e ajustes, encontrei a solução que melhor atendia ao projeto.

Ao final desse percurso, compreendi que a maior riqueza da experiência esteve no processo, mais do que no resultado. Embora eu não tenha ficado plenamente satisfeita com a aparência final do boneco, reconheço o quanto aprendi durante sua confecção. Pretendo revisitá-lo futuramente, iniciando pelo estudo em argila e experimentando novos materiais e diferentes tipos de ponto. Utilizei o ponto caseado durante grande parte da costura e acredito que essa escolha influenciou significativamente a estética final da peça.

Pesquisa resumida sobre os Highlanders Escoceses

Historicamente, a sociedade das Highlands organizava-se em clãs, nos quais a lealdade ao chefe constituía o principal alicerce da vida social, política e militar. Cada clã possuía sua própria identidade, representada pelos tradicionais tartans (padrões xadrez com combinações específicas de cores que distinguiam suas linhagens).

O som vibrante das gaitas de fole acompanhou gerações de escoceses, sendo utilizado para inspirar os guerreiros durante as batalhas e também para animar encontros comunitários. As danças tradicionais, como o Highland dancing e as danças de espada, permanecem até hoje como expressões de força, equilíbrio, destreza e agilidade.

As Highlands também são conhecidas por suas paisagens envoltas em névoa, montanhas e lagos, cenário de inúmeras lendas transmitidas ao longo dos séculos. Entre elas, destaca-se o célebre mistério do Monstro do Lago Ness, que continua despertando a imaginação de visitantes de todo o mundo.

A cultura das Terras Altas permanece viva por meio de encontros festivos conhecidos como ceilidhs, nos quais música, dança e narrativas tradicionais fortalecem os laços comunitários. Da mesma forma, os Highland Games preservam antigas demonstrações de força física e habilidade, reunindo competições como o tradicional arremesso de troncos, lançamento de martelos e provas de resistência.

Entre as tradições artesanais escocesas, destaca-se o processo de acabamento do tweed, tecido de lã espesso e resistente amplamente utilizado nas Highlands. Conhecido como waulking ou luadh, em gaélico, esse trabalho era realizado coletivamente por grupos de mulheres que, enquanto cantavam em sua língua tradicional, batiam ritmicamente o tecido umedecido com urina (rica em amônia) para torná-lo mais compacto e resistente. Esse momento constituía uma verdadeira celebração comunitária, na qual eram compartilhadas histórias, fofocas, notícias, canções e a memória oral do povo escocês.

A relativa autonomia dos Highlanders chegou ao fim após a Batalha de Culloden, em 1746. A derrota jacobita marcou o início de um severo processo de repressão conduzido pelo governo britânico. Diversos costumes tradicionais foram proibidos, incluindo o uso do tartan, o porte de armas, o idioma e inúmeras manifestações da cultura gaélica, numa tentativa de enfraquecer a identidade dos clãs e consolidar o domínio da Coroa sobre as Terras Altas.

A feitura do boneco Highlander Escocês

Me dediquei à criação deste boneco inspirado nos Highlanders da Escócia como uma forma de homenagear um povo pelo qual cultivo profunda admiração há muitos anos. À medida que fui conhecendo a história das Terras Altas escocesas, encontrei homens e mulheres marcados pela coragem, pela resistência e pela fidelidade às próprias convicções, mesmo diante de forças muito superiores. Sua determinação em preservar a própria cultura e sua identidade revelou-me uma grandeza humana que atravessa os séculos.

A confecção do boneco apresentou inúmeros desafios. A costura manual nunca foi minha maior habilidade, mas esse trabalho me ofereceu a oportunidade de superar limitações e de sair da zona de conforto construída ao longo dos demais trabalhos manuais desenvolvidos durante o curso.

Não encontrei moldes prontos para as vestimentas tradicionais dos Highlanders e, por isso, precisei adaptar conhecimentos que já possuía, adaptar moldes emprestados e reconstruir diversas peças a partir das referências históricas pesquisadas. Fiz e refiz inúmeras vezes cada detalhe, ajustando medidas e buscando maior fidelidade às roupas tradicionais.

Pouco a pouco, o traje começou a ganhar vida: o kilt cuidadosamente plissado, cuja técnica aprendi assistindo a diversos vídeos tutoriais de escoceses nativos das Terras Altas, a faixa cruzada sobre o peito para proteger do frio, a boina, a botina confeccionada em crochê, o cinto e o broche improvisado. Cada elemento representou uma oportunidade de aprender uma nova técnica e aproximar-me ainda mais da cultura que buscava homenagear.

O boneco recebeu o nome de Malcolm MacGregor, em homenagem ao tradicional Clã MacGregor, um dos mais antigos e emblemáticos da Escócia. Durante séculos, seus membros enfrentaram severas perseguições, chegando, inclusive, a ter o próprio sobrenome proibido pelas autoridades britânicas. Ainda assim, preservaram sua identidade e seu profundo senso de pertencimento. Em reconhecimento a essa perseverança, Malcolm traz consigo o lema do clã: “S’ Rioghal Mo Dhream”, expressão gaélica que significa “Minha linhagem é real”. Essa frase sintetiza a dignidade de um povo que jamais renunciou às suas raízes mesmo diante da opressão.

Procurei também escolher um tecido cuja padronagem lembrasse o tartan utilizado por este clã. Queria que fosse uma família que tivesse envolvimento nas lutas jacobitas, movimento que buscava restaurar a Casa de Stuart ao trono britânico. Muitos membros do Clã MacGregor participaram desses conflitos e ficaram conhecidos por sua bravura. A própria história da Casa de Stuart remete ainda à memória de Mary Stuart, figura que permanece como símbolo da legitimidade dinástica e da identidade histórica da Escócia.

Entre os personagens mais célebres ligados ao Clã MacGregor destaca-se Rob Roy MacGregor (1671–1734), frequentemente chamado de “o Robin Hood das Highlands”. Homem de extraordinária coragem, tornou-se uma figura lendária por sua resistência diante das injustiças sofridas por seu povo. Embora sua trajetória tenha sido marcada por perseguições, conflitos e batalhas, permaneceu na memória popular como um herói e inspirou livros, filmes e inúmeras narrativas.

Assim nasceu Malcolm MacGregor: uma pequena homenagem a uma cultura rica, resiliente e profundamente humana. Em cada ponto costurado, em cada dobra do tecido e em cada detalhe do boneco permanece um pouco da memória das Highlands e do espírito indomável daqueles que ajudaram a construir a história da Escócia, pelas mãos de uma admiradora distante que ainda sonha caminhar um dia por aquelas magníficas Terras Altas.

Observações e Reflexões

1. A proposta de confeccionar novamente um boneco neste módulo despertou em mim uma reflexão muito especial. Ao recordar o trabalho realizado no terceiro ano, durante a chamada crise dos nove anos, percebo que o sentido desse fazer manual se transforma profundamente. Naquela etapa da infância, em que a criança experimenta pela primeira vez uma separação mais consciente entre si e o mundo, tricotar um boneco representa, a própria imagem da criança que se torna um companheiro. O boneco torna-se um amigo silencioso, alguém que acolhe as inquietações desse novo sentimento de individualidade que começa a nascer e é um espelho ao mesmo tempo.

No sexto ano, porém, esse mesmo gesto ressurge sob uma nova luz. O jovem já não busca apenas um companheiro para si, ele volta seu olhar para um mundo que se expande rapidamente diante de seus olhos. Os estudos da História conduzem ao encontro da Roma Antiga, cuja influência alcançou inúmeros povos e territórios, enquanto a Geografia e a Mineralogia revelam a Terra como um organismo vivo, formado por paisagens, rochas, montanhas e continentes que sustentam nossa existência. Pouco a pouco, o jovem percebe que o mundo é muito maior do que imaginava.

Ao mesmo tempo em que aprende a reconhecer a firmeza da terra sob seus pés, seu olhar também se eleva para o céu. As estrelas, que acompanharam a humanidade desde tempos imemoriais, tornam-se uma imagem da imensidão do universo e também da expansão de sua própria consciência. Se aos nove anos a criança buscava encontrar seu lugar na Terra, aos doze ela começa a perceber que faz parte de uma realidade infinitamente maior, que ultrapassa as fronteiras de sua família, de sua cidade e até mesmo de seu país.

Nesse contexto, confeccionar um boneco representante de um povo do mundo adquire um significado similar e distinto daquele vivido no terceiro ano simultaneamente. Ele deixa de ser apenas um companheiro e passa a tornar-se uma janela para o que está além: outras culturas, histórias e modos de viver. Por meio dele, o jovem é convidado a ampliar o próprio horizonte e a reconhecer que a humanidade se manifesta de inúmeras formas, todas igualmente dignas de respeito e admiração.

Foi justamente essa dimensão simbólica que tornou esta proposta especialmente significativa para mim. Embora tenha apreciado o trabalho com o animal-da-alma, foi na confecção do boneco inspirado em um povo que encontrei um sentido ainda mais profundo. Senti que ele dialoga de maneira muito coerente com o momento biográfico do estudante de doze anos: um ser que, enquanto consolida sua individualidade, começa também a descobrir a vastidão da Terra, a diversidade humana e a infinitude do céu. Assim como o jovem amplia seu olhar para o mundo, o boneco também cresce em significado, tornando-se uma representação concreta dessa travessia entre a infância e uma nova forma de habitar a realidade.

2. Ao longo deste módulo, também fui levada a refletir sobre a expressão “boneco étnico”, tradicionalmente utilizada para designar bonecos que representam diferentes povos e culturas. Embora seja um termo amplamente difundido, ele pode suscitar alguns questionamentos. Afinal, toda pessoa pertence a uma etnia; portanto, nenhuma cultura é, em si, “étnica” mais do que outra. Na prática, porém, essa denominação costuma ser empregada quase exclusivamente para representar povos indígenas, africanos, asiáticos ou comunidades tradicionais, enquanto figuras associadas ao universo ocidental, como um homem de terno e gravata ou uma mulher vestindo roupas contemporâneas as quais estamos habituados, raramente recebem essa mesma classificação. Essa diferença de uso pode, ainda que de forma involuntária, reforçar a ideia de que determinadas culturas são o “outro”, o exótico ou o diferente, enquanto a cultura ocidental permanece como uma referência neutra ou universal.

Para além de uma questão terminológica, essa reflexão convida a pensar sobre a maneira como nomeamos o mundo e sobre os significados que as palavras carregam. Se toda representação humana expressa uma identidade cultural específica, talvez seja mais adequado utilizar expressões como “bonecos dos povos do mundo”, por exemplo. Essas denominações deslocam o foco da diferença para a pluralidade, convidando o estudante a perceber que todas as culturas são igualmente humanas, portadoras de histórias, valores, saberes e formas singulares de compreender a vida.

Essa perspectiva dialoga profundamente com o propósito que percebi nesta proposta. Mais do que reproduzir trajes típicos ou elementos folclóricos, a confecção do boneco tornou-se uma oportunidade de estudar um povo em sua história, em seu contexto geográfico e em suas expressões culturais, desenvolvendo respeito e admiração pela diversidade humana. Nesse sentido, pequenas escolhas de linguagem também possuem um caráter educativo, pois contribuem para formar um olhar que reconhece a riqueza das diferenças sem transformá-las em exotismo. Talvez a expressão “bonecos dos povos do mundo” traduza com maior fidelidade essa intenção pedagógica, ao enfatizar que todos nós pertencemos à mesma humanidade, embora nos expressemos por meio de culturas diversas.

“Eu estou no meio do mundo,
firme, ereto e em paz.
Do alto, o céu me abençoa,
Da terra, a força me sustenta.
Entre ambos me coloco,
Buscando equilíbrio e justiça.”
(Autor desconhecido)

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* A recomendação tradicional do animal-da-alma é que se utilize mamíferos com as 4 patas no chão. No entanto, exceções podem ser feitas, a depender do significado e da vontade do aluno(a), como no caso apresentado.

**Manuela Silveira de Carvalho é aluna-pesquisadora da Pós-Graduação Currículo dos Trabalhos Manuais na Educação Steineriana. Educadora Waldorf desde 2015. Atualmente, é professora de classe do 3º ano do Ensino Fundamental na Escola Flor de Jambo, em Lauro de Freitas, Bahia, onde também atua como orientadora pedagógica, apoiando o desenvolvimento das professoras da escola e colaborando com iniciativas de formação na região. Realizou sua formação em Pedagogia Waldorf pelo Instituto Social Micael, em Aracaju (SE), e pelo Instituto Intamorés, em Botucatu (SP). Ao longo de sua trajetória, também atuou e atua como professora de Trabalhos Manuais, acompanhando tanto as turmas das quais foi professora de classe quanto outras classes nas escolas em que atuou, dedicando-se à construção de uma prática pedagógica fundamentada na Antroposofia e no desenvolvimento integral da criança.
Conheça mais: https://www.instagram.com/manisilveira/