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Três textos

Se sentia com cinquenta, Azul, A notícia chegou no fim da tarde

8 de agosto de 2026

Se sentia com cinquenta

Texto de Luciana Aguilar

Se sentia com cinquenta, talvez fosse mesmo essa a sua idade, já não sabia. A dúvida invadia seus pensamentos diariamente. Decidiu crochetar o tempo. Escolheu a agulha, dentre tantas que tinha. Uma ferramenta para ser a extensão de sua mão, escolha cuidadosa, sabia que a vermelha não a machucaria. Já havia testado todas. Era domingo, tinha acordado cedo, talvez junto com o sol de outono. Escolheu o fio só depois do café preto que passou, na cozinha do apartamento apertado onde vivia. Coado, forte e com açúcar, como se tentasse mais uma vez adoçar seu dia. Começou os pontos sem saber bem o que fazer, qual seria o tamanho do trabalho, quanto de lã precisaria, e sem se preocupar se seria suficiente aquele único novelo na cor laranja. A cidade que nunca dorme ao menos descansava. Domingo. Pensava e planejava, há bastante tempo, como se sustentar em uma cidade caótica, já que queria mesmo era sair daquele emprego que lhe consumia os dias, os anos. Branqueava os cabelos, desde muito jovem. Desde quando escolhera a profissão, pensando que, além do sustento necessário, o emprego lhe traria sentido. Descansou o crochê no colo por um instante, ainda cheia de dúvidas. Seu filho dormia. No suspiro seguinte, voltou ao crochê. Quarenta e quatro pontos e decidiu mudar de carreira. Ainda não sabia o que fazer. Não tinha se preparado tanto assim. Laranja. Outono. Domingo. O filho levantou, o crochê parou, o cotidiano começou. Logo seria inverno.

Azul

Texto de Ivy Ota Calejon

Azul. Estava tão impressionada com a cor daquela planta que tudo que olhava era azul. Não a cor da planta, a planta era verde, mas ao ser macerada junto ao tecido - num gesto que poderia ser o mesmo de fazer pão – azulava-se, devagar e em silêncio. No movimento, ia deixando de ser verde e passando a ser azul. Aprendeu com alguém, que aprendeu com a mãe, que aprendeu com a avó, que aprendeu na ilha e que tinham, todas elas, a cor impregnada nas mãos. Que faziam e refaziam o processo de tingir quase que diariamente, por anos, muitos anos mesmo. Os tecidos eram sempre finos e delicados. Os panos secavam ao vento. Da casa que moravam, ouviam o apito do trem, que insistia em avisar que era hora de recolher. Depois de secos, passados e engomados, ela não sabia o que aconteceria com os tecidos. Se seriam entregues a alfaiatarias, ou costureiras. Não sabia se se tornariam vestidos ou camisas. Prestava tanta atenção ao azul que esquecia de perguntar. Chegou há pouco na cidade. Escolheu aquele sítio para aprender o novo ofício. Índigo. Azul. Foi o azul que a chamou. Foi o cultivo que lhe interessou. Foi o fazer que a trouxe.

A notícia chegou no fim da tarde

Texto de Luciana Aguilar

A notícia chegou no fim da tarde. — Dona Cleuza encantou-se. Contou ao ser perguntada sobre sua tristeza. — Quem era ela? A pergunta do menino trouxe a sua memória o texto de Dona Cleuza, o texto em que pesquisava a lã, o cardar, o fiar e o novelar lã. Ela escreveu assim: “Tudo pronto. Lã cardada. A mais bonita, silenciosa e sólida pedra da coleção foi escolhida. Fiou.” A pedra foi usada como peso para o seu fuso manual. Seguiu sua pesquisa do fiar e registrou. “Só falta o fuso. Sonhava fazê-lo de jatobá, madeira dura, escura, pesada, brilhante, lustrosa. Impossível. Um bambu, quatro furos, duas agulhas de tricô. Falta a ponta, me alerta a professora naquele vídeo. Havia me esquecido. Penso... Penso... Penso... De madeira? Um pião? Epóxi? Sementes de jatobá.” Com o fuso de madeira pronto consegue um longo fio de lã. “Enrolar a lã, fazer o novelo. Enrolo... Enrolo... Enrolo... Enquanto isso, nuvens perdidas, fugazes passeiam em minha mente.” Em meio às nuvens de lã se lembrou que tinha hora marcada no dentista e foi, seu texto-pesquisa continua contando do medo, pavor. Contou da falta de anestesia em seu tempo. Quando a cirurgia iniciou, ela disse: — Meu coração dispara. Volto-me para dentro de mim mesma. Falo baixinho. Que é isso coração? Ali permaneceremos em silêncio, confiantes no processo. Sosseguemos.” A pesquisa continua nos acontecimentos do cotidiano, ela segue pesquisando, sustentou o acontecimento. Depois voltou a escrever “Longos 80 minutos se passaram.” Sabe, essa era sua idade quando iniciou a especialização e a escrita da sua pesquisa. “Enfim, pronto! O dentista perguntou: — Nenhum desconforto? É que ele não percebeu que enquanto nada parecia acontecer, tudo estava acontecendo.”

Tornou-se Especialista em Artes-Manuais para Terapias, aos 83 anos, depois de duas graduações. Diz sua filha: “Nós tínhamos muito orgulho dela por ter feito a pós. Graça aos trabalhos feitos com vocês, relatos, anotações, textos de reflexões, temos muitas lembranças dela”. Suas escritas seguem inspirando outras pesquisadoras.

A notícia chegou no fim da tarde. — Dona Cleuza encantou-se. Contou ao ser perguntada sobre sua tristeza. — Quem era ela? A pergunta do menino trouxe a sua memória o texto de Dona Cleuza, o texto em que pesquisava a lã, o cardar, o fiar e o novelar lã. Ela escreveu assim: “Tudo pronto. Lã cardada. A mais bonita, silenciosa e sólida pedra da coleção foi escolhida. Fiou.” A pedra foi usada como peso para o seu fuso manual. Seguiu sua pesquisa do fiar e registrou. “Só falta o fuso. Sonhava fazê-lo de jatobá, madeira dura, escura, pesada, brilhante, lustrosa. Impossível. Um bambu, quatro furos, duas agulhas de tricô. Falta a ponta, me alerta a professora naquele vídeo. Havia me esquecido. Penso... Penso... Penso... De madeira? Um pião? Epóxi? Sementes de jatobá.” Com o fuso de madeira pronto consegue um longo fio de lã. “Enrolar a lã, fazer o novelo. Enrolo... Enrolo... Enrolo... Enquanto isso, nuvens perdidas, fugazes passeiam em minha mente.” Em meio às nuvens de lã se lembrou que tinha hora marcada no dentista e foi, seu texto-pesquisa continua contando do medo, pavor. Contou da falta de anestesia em seu tempo. Quando a cirurgia iniciou, ela disse: — Meu coração dispara. Volto-me para dentro de mim mesma. Falo baixinho. Que é isso coração? Ali permaneceremos em silêncio, confiantes no processo. Sosseguemos.” A pesquisa continua nos acontecimentos do cotidiano, ela segue pesquisando, sustentou o acontecimento. Depois voltou a escrever “Longos 80 minutos se passaram.” Sabe, essa era sua idade quando iniciou a especialização e a escrita da sua pesquisa. “Enfim, pronto! O dentista perguntou: — Nenhum desconforto? É que ele não percebeu que enquanto nada parecia acontecer, tudo estava acontecendo.”

Tornou-se Especialista em Artes-Manuais para Terapias, aos 83 anos, depois de duas graduações. Diz sua filha: “Nós tínhamos muito orgulho dela por ter feito a pós. Graça aos trabalhos feitos com vocês, relatos, anotações, textos de reflexões, temos muitas lembranças dela”. Suas escritas seguem inspirando outras pesquisadoras.

Escute os textos na voz de Luciana Aguilar

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Se sentia com cinquenta e A notícia chegou no fim da tarde, textos de Luciana Aguilar.

Especialista em Artes-Manuais para Educação e gestora acadêmica. Coordenadora Pedagógica da Pós-Graduação Artes-Manuais para Educação. Artemanualista. Docente da pós-graduação Artes-Manuais para Terapias. Pedagoga, atua como professora particular e orientação de trabalhos escolares e de textos acadêmicos. Mãe, estudante do curso de Letras. Escritora. Escreve sobre temas do cotidiano, as coisas ditas pequenas da casa, os fazeres manuais com fios, maternidade e mulheres. Pesquisadora da leitura e dos processos de escrita.

Conheça mais sobre a Luciana: https://www.instagram.com/luciana_aguilar86/

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Azul, texto de Ivy Ota Calejon

Especialista em Artes-Manuais para Educação. Após o curso, produziu um documentário sobre a temática, realiza oficinas e faz parte do volume 3 da coleção Artes-Manuais para educação: a produção de conhecimento entre os fios da casa e de si.
Conheça mais sobre Ivy: https://www.instagram.com/ivy.ota.calejon/