A escrita da história

É necessário uma escrita desafiadora, pois perspectival.

Desde que criei as Pós-Graduações em Artes-Manuais, minha vida temmudado radicalmente. Até então, a cada semana, em algum lugar do país ou domundo eu me encontrava com pessoas, interagia com elas durante dois ou trêsdias e, depois, não as via mais por um bom tempo, até que a vida nosaproximasse novamente. Desde as pós-graduações, muito mudou. Todo mês, as mesmas pessoas, das diversas turmas, com suas vidas, demandas, questões, seguem comigo, na produção de um conhecimento coletivo inédito e pleno de processos de subjetivação. A área de pesquisa que criamos em artes-manuais faz um traçado diagonal entre três outras áreas, perpassando-as e transformando-as. A primeira, as manualidades, mais ligadas às artes domésticas. Especialmente, mas não só, as artes do fio, tricô, crochê, tecelagem, costura. A segunda área constitui-se das artes visuais, literárias e musicais. Por fim, a terceira área, a educação superior e a pesquisa, mas a educação tomada como bildung, que quer dizer, a educação como formação, como "tornar-se o que se é". A bildung "poderia ser entendida como a ideia que subjaz ao relato do processo temporal pelo qual um indivíduo singular alcança sua própria forma, constitui sua própria identidade, configura sua particular humanidade ou, definitivamente, converte-se no que é", diz o filósofo e educador Jorge Larrosa Bondia. Enfim, a educação como produção de mundo, vida, subjetividade. Em vista da complexidade do projeto, das áreas que atravessa, potencializando sua multiplicidade, está sendo instigante registrar o processo. É necessário uma escrita desafiadora, pois perspectival. É a isso que estou chamando de "A escrita da história", um pouco inspirada pelos cuidados que Michel de Certeau nos faz observar, no livro de mesmo nome. Uma escrita que traga em si as marcas processuais e que deixe pistas para o outros possam acompanhar a produção de vidas, no desenvolvimento de dispositivos onde a produção de conhecimento se dá na imanência do vivido.*

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*Escrever história é um exercício de perspectivação do olhar. Começo a escrever ahistória da produção de um novo campo de conhecimento: as artes-manuais comhífen. Ao fazê-lo, olho para mim mesma de uma outra perspectiva. A perspectivaprocessual de quem produz história, produzindo a si mesmo. A Escrita da História, livro de Michel de Certeau sobre as operações que regulam a prática historiográfica.

 

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