O fuso que me fia

Cartografia em Artes-Manuais para Terapias

*Texto de Patrícia Avancci

A madeira arranha. A lâmina não entra como imaginei. O corte não obedece à linha reta que eu havia traçado em pensamento. A base escapa da mão, o eixo não se firma, e sinto a fúria subir pela garganta. O corpo inteiro se contrai. O fuso que deveria nascer parece zombar de mim. E logo a voz que me acompanha há anos ecoa, certeira: “se não ficar perfeito, é melhor nem continuar.”

É nesse instante que percebo que a pesquisa não começa na ordem, mas no tropeço. Não é o resultado acabado que inaugura o pensamento, é a frustração. É quando o corpo falha que algo novo se abre.

Richard Sennett lembra que a ferramenta é extensão do corpo, um prolongamento do gesto que dá forma ao mundo. Aqui, percebo que é também extensão da minha vulnerabilidade. O fuso nasce torto porque minhas mãos carregam pressa. Porque ainda não sei esperar o tempo da madeira. Porque o medo do julgamento me impede de me entregar ao gesto simples. A madeira resiste, mas não é inimiga: é espelho. Ela me devolve a ansiedade que trago, a rigidez que me domina, o desejo de controle que tantas vezes me paralisa.

Cada tentativa frustrada repete o mesmo movimento, mas não retorna ao mesmo ponto. Como aponta Deleuze, a repetição não é cópia, não é generalidade é diferença. E nesse movimento descubro que cada erro abre uma possibilidade. Não é fracasso, é devir. É a própria pesquisa me lembrando que não existe aprendizado sem desalinho, que não existe gesto sem variação.

A cada golpe imperfeito, a cada encaixe malfeito, um pequeno deslocamento acontece. Uma curva inesperada, uma borda irregular, um detalhe que não estava no plano. E o que parecia falha se revela como abertura. A repetição me obriga a suportar o tempo, a conviver com a espera, a aceitar que entre o início e o fim não há linha reta, mas espiral.

Tim Ingold nos lembra que viver é estar em fluxo, sempre em formação. E o fuso me ensina isso no corpo: não sou eu quem o constrói, é ele que me move, que me coloca em devir junto com a madeira, o ferro, o gesto. Há uma simultaneidade de forças aqui a mão que treme, a madeira que resiste, o tempo que se arrasta. Não há hierarquia, todas agem, todas dizem algo. O fazer manual não é simples execução, é diálogo, é fricção viva.

Quando finalmente consigo firmar a peça, ela não se parece com o que idealizei. É torta, irregular, quase frágil. Mas pulsa. Carrega as marcas das minhas hesitações, o suor das mãos, os desvios da pressa, a paciência que precisei aprender. O fuso

imperfeito é testemunha, não do triunfo da perfeição, mas do processo de me deixar atravessar pela matéria, pelo tempo, pela falha.

Mas o fuso, sozinho, não basta. Ele não existe para si. É feito para girar, para puxar da lã o fio que ainda não é. Pego uma lã ainda solta, enrolada e à espera do que virá a ser, e começo a experimentar o gesto de torcê-la.

A princípio, nada acontece. A fibra escapa dos dedos, se rompe, se desmancha. O movimento é trêmulo, incerto. Tento novamente, giro o fuso, puxo a lã, e o que nasce é um fio irregular, que ora se alarga em espessura, ora se afina até quase desaparecer. A falta de habilidade marca cada centímetro produzido. Mas é nesse traço desigual que a pesquisa continua.

O fio não é uniforme, não é polido. É vivo. Carrega as hesitações do corpo que ainda não domina a ferramenta. A cada giro, descubro que não sou apenas eu que produzo o fio, é também o fuso que me conduz, é a fibra que me ensina seu ritmo, é o tempo que se alonga para que a linha possa nascer.

Ao final, tenho entre as mãos um pequeno bolinho de fio. Tímido, singelo, imperfeito. Um fio que não esconde as marcas da falta de técnica, mas que se orgulha de existir apesar delas. Esse bolinho é mais que resultado, é promessa. Ele aponta para o que virá a ser tecido, para aquilo que ainda não sei.

O fio irregular testemunha que a pesquisa não termina com a construção da ferramenta. Ela se prolonga no gesto de usar, de experimentar, de falhar e insistir até que algo tome forma. Assim, o fuso e o fio são inseparáveis, um nasce do outro, e ambos nascem do processo de pesquisa que é, antes de tudo, um exercício de suportar a imperfeição e de aprender com ela.

E talvez seja exatamente aí que resida a força desse fazer: o fio não precisa ser perfeito para ser verdadeiro. Ele é, como a própria pesquisa, inacabado e promissor.

Escute o texto na voz da autora

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*Patrícia Avancci é pesquisadora na Pós-Graduação Artes-Manuais para Terapias e o texto cartográfio é parte do exercício do Módulo Quinto.

Diz Patrícia sobre si:

Eu acredito profundamente que nós, mulheres maduras, temos o direito de nos colocar em primeiro lugar, sem culpa. Eu sei como é fácil nos perdermos em meio a tantos papéis que desempenhamos, mas também sei que não precisamos viver assim. Minha missão é te mostrar que é possível superar as crenças que te limitam, como o medo de envelhecer, e te ajudar a planejar uma vida cheia de propósito e realização pelos próximos 40 anos. Juntas, podemos resgatar os sonhos que você deixou para trás e ativar o poder que está dentro de você, para que você possa florescer com força, leveza e alegria.

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