Tempo, passatempo, passar o tempo...

a imagem da casa se transforma na topografia do nosso ser íntimo

Texto de Patrícia Amantino Estivallet*

“Examinadas nos horizontes teóricos mais diversos, parece que a imagem da casa se transforma na topografia do nosso ser íntimo.” Gaston Bachelard - A poética do espaço

Agora tenho me demorado em olhar a casa, habitá-la nestes anos de aposentadoria me permitem esse tempo de apreciação e participação com seus ritmos e suas coisas.

Se, segundo Bachelard, as gavetas, os cofres, os armários “trazem consigo uma espécie de estética do escondido” (Bachelard, 1978), o que trariam consigo os relógios?

Aqui habitam relógios: de parede, de pulso, digitais e analógicos. Os analógicos são tão “analógicos” que possuem “manivelas”. Saberão vocês o que é uma manivela?

Voltemos aos relógios da casa, um deles é centenário e sempre na família, é um relógio de parede daqueles com pêndulo que bate a cada 15 minutos. Quando mais jovem, implicava com suas constantes batidas, hoje seu silêncio me incomoda, não há mais quem entenda suas engrenagens, que permanecem então, silenciosas.

E tem um relógio ponto, aquela caixa de metal verde com uma alavanca e cartões de papel, que foi abandonado com a chegada do “ponto digital”, o relógio que minha mãe nunca tirava do pulso e ainda, os digitais no computador, nos celulares, mas não é nesses que me demoro, são óbvios demais e nem fazem tic-tac.

Interesso-me pelo relógio da parede, pelo relógio ponto e pelo relógio da minha mãe. O que eles têm em comum? Um jeito “artesanal”, quase manual de pensar e registrar o tempo. É preciso nosso engajamento com a coisa, é preciso dar “corda”, um ato físico, dar corda ao tempo.

Nos maiores, relógios de parede, as manivelas precisam ser encaixadas no lugar correto e serem acionadas diariamente. Compreendes? É ação nossa com a coisa.

É preciso parar e atentar ao tempo, girar a manivela várias vezes, é preciso presença, por o tempo em movimento e então, me parece que o tempo deixa de ser Chronos, linear, simplesmente o tempo do relógio e passa a ser Kairós, estamos presentes vivenciando o tempo, tempo/experiência, que gira a manivela.

O relógio de pulso também necessita da nossa ação, girar o pequeno pino e convidar o tempo a passar, nossa ação/presença traz significância para sua passagem.

E mais, precisamos pensar o tempo, ele não está posto brilhando aos nossos olhos, como em um relógio digital. É uma atividade cognitiva: ponteiros grandes, ponteiros pequenos, uns mais lentos, outro que passa acelerado, cinco, dez, quinze, os minutos precisam ser calculados. Sem esse saber construído, não nos servem estes marcadores do tempo.

E sabes? Algumas pessoas só reconhecem as horas no relógio digital, uma pena, apenas olham, não experienciam o tempo, pois o tempo só se torna tempo no momento em que o vivenciamos.

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Escute o texto na voz da autora

*Patrícia Amantino Estivallet - Porto Belo - SC

Arte Educadora, Licenciada em Artes Visuais, Especialista em Arte e em Neuropsicopedagogia, graduanda em Sociologia, pesquisadora da cultura popular. Trabalhando sempre com educação pública e, há mais de vinte anos, também na educação não formal. Artista plástica, ceramista e bonequeira, atua como contadora de histórias e, no Teatro de Miniaturas. Ministra Oficinas de Arte e Manualidades.

Email: bonequiando@gmail.com